APRENDENDO COM NAPOLEÃO: ESTUDE ANTES DE DECIDIR

“A guerra é o domínio da incerteza; os três quartos de elementos nos quais a ação se fundamenta permanecem nas brumas de uma incerteza mais ou menos grande. Mais do que em qualquer outro domínio, é necessário que uma inteligência sutil e penetrante saiba, instintivamente, discernir e apreciar a verdade”.[1]


A crise pandêmica do novo coronavírus tem lançado os líderes mundiais numa bruma de incerteza semelhante à guerra, e algumas das indagações dos nossos dias: cuidar da saúde ou da economia; isolamento vertical ou horizontal; têm sido, reiteradamente, debatidas pela sociedade.


A resposta mecânica tem sido: “Siga a ciência! Siga a ciência!” O que quer dizer: “lockdown”, quarentena ou qualquer coisa assim, que for indicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).


O que Napoleão, gênio militar do seu tempo, pode nos ensinar para obtermos a vitória nessa guerra contra um inimigo invisível?


A primeira dica de Napoleão é estudar o conjunto de informações disponíveis, cuidadosamente.


“...Napoleão, quando indagado pelos seus generais sobre como ele adivinhava sempre as intenções do inimigo com tanta precisão, respondeu: eu não sabia antecipadamente os erros que o inimigo cometeria, e dos quais tirei vantagem: simplesmente estudei a minha carta (mapa). “[2]


Apesar de toda a politização que a pandemia tem recebido, há estudos que nos permitem avaliar o impacto da economia na saúde do povo, ratificando que são áreas interdependentes.


A Revista de Saúde Global Lancet, a qual é uma publicação que incorpora inúmeros artigos de estudos sobre saúde em diversos países do mundo, veicula estudo que, em tradução livre, tem como título: ”Efeito da recessão econômica e impacto das despesas com saúde e proteção social na mortalidade de adultos: uma análise longitudinal de 5565 municípios brasileiros”[3], elaborado por Thomas Hone e outros autores.


Apesar do viés progressista e globalista, o escrito traz luz para a importância da economia na condição de saúde das pessoas, estimando o aumento da mortalidade no Brasil, tendo como causa o desemprego gerado na crise econômica de 2014 a 2016.


A pesquisa analisa 6.621.347 mortes, que correspondem a 93,7% dos 7.069.242 de óbitos ocorridos no período de 2012 a 2017, em 5565 municípios brasileiros (total de 5570), em pessoas com 15 anos ou mais.


A análise utiliza métodos estatísticos que permitem inferir sobre as alterações no número de mortes em relação ao aumento do desemprego no período. A estimativa chegou ao número de 31.415 mortes do período de 2012 a 2017, devido à crise econômica ao qual o país foi submetido nesse intervalo de tempo.


Avaliando-se os motivos desse aumento, o artigo destaca os efeitos da recessão econômica sobre o sistema de saúde, devido à redução de receita do estado, implicando o aumento do tempo de espera para tratamentos de saúde, escassez de medicamentos e atrasos no pagamento a funcionários da área de saúde. Ressalta que, as pessoas economicamente mais vulneráveis, as quais são mais dependentes do sistema de saúde e de proteção social, são as que mais sofrem com o impacto da precarização do sistema de saúde no Brasil devido à crise econômica.


Não é difícil compreender que um Estado empobrecido significa uma saúde empobrecida.


O exemplo de Napoleão nos diz que as informações estão disponíveis para todos. Quem melhor estuda, obtém a vitória ou, no caso da pandemia, a menor perda de vidas humanas.


Ou seja, não há alternativa, saúde ou economia. Se a economia for destruída, a saúde também o será!


É por este motivo que seguir, cegamente, apenas uma visão sobre o problema pode impedir o acesso às informações estratégicas, que nos permitem enxergar a guerra como um todo e as suas consequências no médio e longo prazo.


Na aviação tem-se um efeito parecido e que leva a consequências, igualmente, desastrosas.


A visão em túnel acontece quando o piloto se prende a uma só informação, levando-o a decidir erroneamente sobre a condução da aeronave e a correção a ser feita. Para resolver algumas panes o piloto deve dirigir a atenção para certos instrumentos, mas também deve estar atento ao conjunto geral de informações e o que está acontecendo à sua volta.


Felizmente, já há no Brasil um movimento que se permite olhar com mais clareza a condução do combate à Covid-19. Temos Governadores que começaram a pensar pelos seus próprios estudos e não seguindo, roboticamente, a ordem de fechamento total proposto pela OMS.


O Governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, tem se esforçado para corrigir um erro cometido em março deste ano, momento em que ordenou a quarentena no Estado, sendo que somente 10 cidades, dos 497 municípios do RS, apresentavam casos do Covid-19.


Pressionado, seguiu a “grita” generalizada: “fecha tudo!” E, por intermédio de Decreto de Calamidade Pública, de 19 de março de 2020, pôs o Rio Grande do Sul em quarentena. O primeiro caso da doença foi registrado em 10 de março de 2020.


O primeiro movimento de reabertura foi em 16 de abril de 2020, quando permitiu que os Prefeitos decidissem sobre a quarentena, considerando-se a condição de contágio de cada localidade. Para tal, apresentou uma iniciativa simples e bem planejada que representa um esforço da ciência gaúcha em orientar as ações do Governador. Trata-se de um estudo estatístico conduzido pela Universidade Federal de Pelotas, em conjunto com outras 11 instituições de ensino, que tem como objetivo entender o contágio do Covid-19 no estado, em especial, a situação do contágio, velocidade de expansão e a letalidade da doença.


A pesquisa baseia-se na aplicação de exames para o Covid-19 e questionários para 4.500 pessoas, residentes em 9 cidades gaúchas, seguindo critérios do IBGE sobre o perfil populacional.


Em cada rodada são testadas 500 pessoas em 9 cidades representativas do estado, repetindo-se este procedimento em quatro etapas distintas (11-13/4; 25-27/4; 9-11/5 e 23-25/5).[4]


Mais do que ciência aplicada à realidade local, esse esforço significa, com muito orgulho, que os pesquisadores gaúchos estão pensando com a própria cabeça e não seguindo, cegamente, instituições estrangeiras burocráticas que não conhecem a realidade do povo e a propagação da doença no nosso país.


Para finalizar, um dos fatos que mais me impressionou na minha missão como Adido Militar na França decorreu de uma reunião com oficiais do exército francês.


Conversando sobre a instrução dos militares franceses, questionei se eles estudavam muito os ensinamentos de Napoleão e recebi a seguinte resposta: “Vocês devem estudar mais do que a gente. Na França ele é considerado um traidor e os seus ensinamentos não são estudados nas nossas escolas militares!”.


Desde aquele momento percebi que, em Paris, havia poucas referências a Napoleão I. Eu vi somente duas pequenas estátuas do imperador: na Praça Vendome e no Museu Militar dos Inválidos.


Se os franceses não querem aprender, problema deles! Aprendamos nós!


Estude antes de decidir!


Jorge Schwerz é Coronel Aviador da Reserva da Força Aérea Brasileira; MsC pelo ITA; ex-Adido de Defesa e Aeronáutica na França e Bélgica; e Coordenador do Blog Ao Bom Combate!

[1] VON CLAUSEWITZ, Carl. Da Guerra. São Paulo: Martins Fontes, 1986. p. 51; [2] VON FREITAG-LORINGHOVEN, Hugo. O poder da personalidade da Guerra. Rio de Janeiro. Bibliex, ; p. 71; [3] HONE ET AL.; Effect of economic recession and impact of health and social protection expenditures on adult mortality: a longitudinal analysis of 5565 Brazilian municipalities. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/langlo/article/PIIS2214-109X(19)30409-7/fulltext. Acesso em: 9 de maio de 2020; e [4] RIO GRANDE DO SUL. Epidemiologia da Covid-19 no Rio Grande do Sul. Disponível em: 1ª etapa: https://www.estado.rs.gov.br/upload/arquivos//covid-19-estudo-versao-atualizada.pdf e 2ª etapa: https://www.estado.rs.gov.br/upload/arquivos//pesquisa-ufpel-fase2-20200428.pdf. Acesso em: 9 de maio de 2020.




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