CARTA AO POVO BRASILEIRO - Major Brigadeiro do Ar Eduardo Gomes

Em comemoração aos 80 anos da criação da Força Aérea Brasileira, em 20 de janeiro de 2021, trago para os leitores do Blog Ao Bom Combate, a carta do Major Brigadeiro do Ar Eduardo Gomes dirigida aos brasileiros, por ocasião da eleição presidencial de 1945, na qual ele concorreu, tendo sido derrotado pelo candidato de Getúlio Vargas, General Dutra.

A carta foi escrita em 18 de dezembro de 1945, entre as eleições que ocorreram em 2 de dezembro de 1945 e a promulgação dos resultados.

Esta carta representa o último escrito do livro “Campanha de Libertação”, compêndio que reúne os discursos, entrevistas e cartas do candidato à presidência de república Eduardo Gomes, impresso pela Livraria Martins Editora.

Militar exemplar, brindo os leitores do Blog Ao Bom Combate com a face democrata do cidadão Eduardo Gomes, que tem muito a nos dizer nesses dias tão escuros, 75 anos depois.

CARTA AOS BRASILEIROS

- 18 de dezembro de 1945 -


Devo uma palavra de gratidão aos brasileiros que sufragaram o meu nome para a eleição presidencial.


E apresso-me em fazê-lo antes da proclamação definitiva dos resultados pelo Tribunal Superior, em respeito e homenagem à Justiça dos Estados, que está a concluir a apuração dos votos nas respectivas regiões, e como testemunho de que não me valerei dos recursos legais para contestar o diploma do meu competidor.


Inclino-me à voz das urnas, na sua expressão formal, por não me competir, como candidato, indagar se ela traduz, ou não, os anseios do País. As conclusões do pleito, apesar dos notórios vícios da lei que o disciplinou. Estão ungidas do privilégio de encarnar a vontade da nação. Se ela pronunciou soberanamente as suas preferências, só há motivo para nos regozijarmos com essa fecunda experiência de um povo, que retoma a prática dos seus direitos cívicos. Conhecendo a liberdade, ele jamais se resignará às ignomínias da escravidão.


Desde o começo de nossa campanha, colocamos em primeiro lugar os problemas das instituições representativas, dos direitos e garantidas dos indivíduos, da doutrina e da realidade republicanas. Fui menos um pretendente ao governo do que o defensor da legalidade democrática.


No Exército e na Aeronáutica, aprendi a servir ao País e a cultuar-lhe as tradições, com o desinteresse que nobilita os meus companheiros de armas. Como o deles, o meu coração pulsava apenas pelo Brasil.


Na consciência militar se espelham as amarguras e as aflições da Pátria; e nela se refletem, às vezes com mais intensidade, ganhando volume e relevo, pelo contraste entre os fatos da vida pública e a substância imorredoura dos ideais, que residem, incontaminados, na vida do espírito.


Não há lugar para outras cogitações que não sejam as do bem comum, como não há escusas para a deserção das responsabilidades. Aceitei, sem temor, as que me eram impostas, de combater, como cidadão, uma ditadura afrontosa ao nosso passado e aos nossos créditos morais.


E, como o triunfo, na empresa de demolição de um regime condenado, exigiria constância e firmeza na obra reconstrutiva, não hesitei em desdobrar, perante os nossos patrícios, nas cidades do litoral e do interior, o panorama dos problemas fundamentais da República e a agenda das soluções ditadas pela coerência e pelo patriotismo.


De nosso lado, procuramos conter, no quadro da evolução natural, as mais legítimas aspirações modernas, sem pactuar no erro das correntes extremistas, incompatíveis com a era de compreensão e harmonia sociais.


Não fizemos agravos, não formulamos doestos, nem nos afastamos da ética partidária, enquanto repontavam, de vários setores, as falsidades premeditadas, erigidas em instrumento fulminante de conquista do poder, nos últimos dias de novembro, com a adoção de métodos só usados na Alemanha Nazista.


A nossa linguagem foi tão clara, tão nítida e tão leal quanto as intenções que nos animavam. Ouviram-na os brasileiros como um eco dos desejos mais nobres da sua alma. Neles e em nós, não havia a sombra de um cálculo mesquinho, nem essa recíproca sinceridade foi comprometida por qualquer mácula de imediatismo político.


Uns e outros nos debruçávamos, por breves instantes, sobre o futuro do Brasil, sem desviar a vista dos horizontes que descortinam a segurança da sua eternidade. Na singular união de propósitos, sobeja o prêmio com que a generosidade popular recompensou os nossos trabalhos. O espetáculo de vibrantes multidões, professando, nos comícios, a fidelidade às normas da civilização americana, não se apagou em nossa retina; e o proveito, que daí e que nos orgulha, foi o de haver partilhado com a parte mais sensível da Nação as suas dores, as suas advertências e as suas esperanças.


A Restauração da autoridade da lei, com a entrega do executivo federal ao chefe da magistratura, bastaria para assinalar a nossa vitória no terreno das ideias. Naquele momento perdurável da história, as classes armadas se identificaram com o sentimento civil. Poucas serão as palavras para celebrar a altura moral, em que se colocaram o Exército, a Marinha e a Aeronáutica. O País lhes é devedor da liberdade que desfruta.


Não importa investigar se essa liberdade foi bem ou mal exercitada. A vida de um povo não se mede por um ângulo particular momentâneo, e sim pelas linhas maiores da sua evolução; é um problema que pertence ao tempo.


Se recordarmos a deformação sistemática, empreendida em oito anos de despotismo, teremos razões de sobra para festejar a persistência de uma inumerável legião de liberais, no quadro da Federação, incansáveis e resolutos, expondo-se a todos os sacrifícios para não abjurar de suas convicções políticas.


Só merecem respeito, admiração, reconhecimento. Serviram à democracia, por sua inconformidade com a ditadura, pela coragem no criticá-la, pela determinação em vencê-la com os inesgotáveis recursos do caráter e da inteligência.


São as grandes forças espirituais, que a tirania não pode exterminar, nem recolher aos cárceres, nem fadar aos desterros e aos exílios.


Ainda sob as dúvidas, perfeitamente justificadas, da realização de um pleito honesto, essas relíquias indestrutíveis da honra nacional compuseram uma importante porção do eleitorado que iria decidir os nossos destinos. Seríamos injustos, não realçando o esforço dos antigos partidos estaduais, recompostos em unidades de âmbito federal, sob os vínculos de adiantados programas, e a galharda atuação das gerações novas, que constituiu uma base meritória para as suas possibilidades futuras; ou se omitíssemos a atividade eficiente de sacerdotes e ligas católicas, contribuindo para despertar, no povo oprimido, o interesse de participar, pelo voto, nas funções do Estado.


Voltando aos labores da carreira militar, continuarei fiel aos compromissos que os cidadãos bem intencionados contraem com a Pátria, para honrá-la e engrandecê-la. E os meus votos são por que se torne possível a vitória integral da democracia, na redação do texto constitucional e na elaboração das leis que devam reger os destinos do Brasil.


Desejo, sobretudo que se preserve e se mantenha, nos delineamentos da teoria e na constância do exemplo, a pureza da ordem democrática. O povo brasileiro merece, como nunca, ter a certeza da sua definitiva emancipação.


Não devem desanimá-lo alguns fatores transitórios, que influíram na escolha de 2 dezembro, e que são os resíduos de um governo maléfico, na sobrevivência dos erros, que acumulara, para nosso infortúnio: a submissão fascista dos trabalhadores do Estado, o descuramento da educação, o pauperismo, que criou e de que serve, como beneficiário paradoxal dos males infligidos a uma parte considerável de nossa população, que, em Municípios espoliados nas suas rendas, não dispõe de assistência médica ou hospitalar, de ensino, dos meios essenciais à subsistência, tanto mais difícil quanto aumentou, em muito, o preço das utilidades, com a anarquia financeira e o desequilíbrio econômico.


Dizia Luís Blanc que, antes de 1789, a França tinha o pão sem a liberdade; teve, depois, a liberdade sem o pão. A ditadura, no Brasil, negou um e outra às classes trabalhistas; só a democracia, em seu conteúdo contemporâneo, poderá conciliar essas necessidades supremas da existência digna. Por mais apreensiva que seja a previsão dos anos próximos, não desfaleça o ânimo dos nossos concidadãos para travarem a contínua e penosa batalha dos seus princípios; compreendam que muitos obstáculos têm a remover, e que lhes cumpre manter indefectível a perseverança, não só na coesão e no exercício do sufrágio, mas também no debate dos grandes temas e na informação dos grupos, onde ainda não penetrou a verdade. A hora do mundo e do País é profundamente igualitária, no que representa de esforço para anular distinções econômicas, em conflito com a nossa índole, e educar as gerações a prezarem e defenderem os benefícios da cultura humanística. Cada vez mais, confiemos nos valores eternos da autêntica justiça, que deve reger a sociedade e os indivíduos. A felicidade coletiva é uma conquista incessante, uma luta sem tréguas para o aperfeiçoamento dos processos sociais. Sejamos vigilantes no amor à liberdade, resguardando-a de riscos e atentados; no respeito à lei, evitando que ela se abastarde em poderes ilegítimos. Muitas podem ser as surpresas que desviem os povos do seu rumo espontâneo; elas, porém, só produzirão efeitos duradouros, se os democratas transigirem com a sua fé. O dever, que agora lhes incumbe, é sustentarem sobre as multidões insatisfeitas ou crédulas, avisadas ou iludidas, o pendão democrático, isento de qualquer mancha no prestígio e na beleza do seu símbolo.

Major Brigadeiro do Ar Eduardo Gomes – 18 de dezembro de 1945


Jorge Schwerz é Coronel Aviador da Reserva da Força Aérea Brasileira; Mestre em Ciências pelo ITA; ex-Adido de Defesa e Aeronáutica na França e Bélgica; e Coordenador do Blog Ao Bom Combate!




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