EMMANUEL MACRON É DE ESQUERDA?

RESUMO

“Essa inverdade do Macron ganhou força porque ele é de esquerda e eu sou de centro-direita. Deixo bem claro isso aí para vocês” - disse o Presidente Bolsonaro, sendo contradito por vários comentaristas políticos, que correram para afirmar que Macron era considerado, pelos franceses, como de centro-direita. O autor analisa a distorção do espectro político francês a partir do artigo da Professora-pesquisadora Speranta Dumitru, da Universidade Paris-Descartes, em matéria ao periódico The Conversation, a qual analisou o livro lançado por dois dos ex-conselheiros de Macron - David Amiel e Ismael Emelien: Le Progrés ne tombe du ciel (O Progresso não cai do Céu). A Professora Dumitru define o livro como claramente de esquerda e destaca que a ausência de doutrinas políticas de direita na França causa uma distorção na análise do espectro político, apesar de Macron, muitas vezes, ter adotado ações claramente da agenda esquerdista.


ARTIGO COMPLETO

“Essa inverdade do Macron ganhou força porque ele é de esquerda e eu sou de centro-direita. Deixo bem claro isso aí para vocês” - disse o Presidente Bolsonaro durante entrevista realizada a jornalistas que acompanhavam a recepção ao Presidente do Chile, Sebastián Piñera, no dia 28 de agosto de 2019.

De imediato, a frase colocada pelo Presidente do Brasil chamou a atenção de vários comentaristas políticos, que correram para afirmar que Macron era considerado, pelos franceses, como de centro-direita. Será mesmo?

O Presidente francês Emmanuel Macron, eleito em 7 de maio de 2017, é economista de formação. Teve o seu início político na Esquerda, unindo-se ao Partido Socialista de François Hollande, o qual o levou ao Palácio Eliseu como Ministro da Economia, em 2012.

Um pouco mais de um ano antes das eleições presidenciais francesas de 2017, Emmanuel Macron abandonou o Governo de Hollande e criou o seu próprio Movimento Político, o “En Marche” (alguns dizem fazer alusão às suas iniciais: EM) apresentando-se como uma alternativa ao que existia à época, dizendo não ser nem de direita e nem de esquerda.

Mas então porque os franceses o veem como de centro-direita?

Esta foi a pergunta feita pela Professora-pesquisadora Speranta Dumitru, da Universidade Paris-Descartes, em artigo ao periódico The Conversation, ao analisar o livro lançado por dois dos ex-conselheiros de Macron - David Amiel e Ismael Emelien. Nessa obra, os ex-conselheiros de Macron defendem a agenda do “Progressismo” do seu governo, em oposição a agendas “Populistas”, cujos líderes mais destacados dizem ser Trump (EUA), Mateo Renzi (Itália)[1] e, naturalmente, Bolsonaro.

De acordo com a Professora Dumitru, “Este livro, Le Progrés ne tombe du ciel (O Progresso não cai do Céu), é claramente de esquerda. Como explicar que um pensamento de esquerda é percebido na França como sendo de direita?”[2]

“Uma das hipóteses está na oferta do pensamento político existente na França”, explica a Professora Dumitru. “Enquanto a esquerda conhece uma multiplicidade de tendências, a direita enfrenta um empobrecimento ideológico. As doutrinas clássicas da direita - democracia cristã, conservadorismo, liberalismo - não são debatidas pelos intelectuais nem assumidas pelos partidos. Esse desequilíbrio apresenta o risco de distorcer a avaliação de toda a visão política”2.

[...] “A democracia cristã, cujos representantes contribuíram para a fundação do projeto europeu, desapareceu no início da Quinta República (com o fim do Movimento Popular Republicano). Quanto ao "conservadorismo" e "liberalismo", os políticos adotaram o uso pejorativo dessas palavras, privando seu eleitorado de uma pluralidade de visões de mundo”2.

Assim sendo, apesar de Macron adotar programas claramente de esquerda, não levou muito tempo para a Mídia francesa colar nele a pecha de “Pai dos Ricos”, após a implementação de reformas impopulares na área econômica.

Uma das agendas de Macron, vindas da esquerda, foi implementada logo no início do seu governo, por intermédio do igualitarismo entre homens e mulheres, pois metade dos 22 membros do primeiro escalão foram preenchidos por mulheres. Ou, como começa o artigo do jornal La Tribune, de 18 de maio de 2017, “Um feminista no (Palácio) Eliseu” [3]. Macron dizia que a igualdade entre homens e mulheres era uma “causa nacional”.

A verdade é que Macron sempre usou a camisa do “diferente de tudo que está aí”, para poder se utilizar de programas já apresentados por ambos os lados do espectro político, sem ficar rotulado por eles.

A ironia é que, uma das maiores derrotas políticas da era Macron, o Movimento dos Coletes Amarelos, teve como gatilho a continuação de uma política de meio ambiente do Partido Socialista, na qual o Governo Francês aumentou o preço do diesel procurando desestimular os proprietários de veículos automotores a utilizarem este tipo de combustível. (O colete amarelo faz alusão a quem tem posse de automóvel na França, visto que todos os veículos devem ter, no mínimo, dois coletes amarelos).

Da mesma forma, de acordo com o artigo do Editorialista do jornal francês Le Figaro, Ivan Rioufol, em artigo de 28 de agosto de 2019, Emmanuel Macron não deixou de lado a principal ferramenta das esquerdas: a mentira. “Quando Emmanuel Macron acusa o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, de ter mentido, não lhe causa estranheza o lugar ocupado pela mentira na política francesa e fora dela. [...] Sua recente escolha de ilustrar incêndios na Amazônia com uma foto espetacular tirada há, pelo menos, quinze anos atrás é uma prática que antes era deixada para pequenos publicitários”[4].

Macron continuou a oscilar entre a esquerda e a direita, tentando fugir de estereótipos, o que levou ao confronto com Bolsonaro: a agenda ambientalista.

Apesar de toda verve do dignitário francês sobre o meio-ambiente, sabe-se que é apenas desinformação, pois já ficou claro que o objetivo final de Macron é cancelar o Acordo entre a União Europeia e o Mercosul para defender o mercado francês.

Finalmente, a definição da posição no espectro político depende muito da posição do próprio observador neste espectro. Ou seja, da mesma forma que a mídia e o meio acadêmico brasileiro é, na sua maioria, grandemente influenciada pela esquerda e, a partir daí, define o Governo de Bolsonaro como “extrema direita”. Na França, igualmente, a mídia e o meio acadêmico, fortemente influenciada pela esquerda, não conseguem “ver” as ações esquerdistas de Macron, definindo-o como Centro-direita.

Bolsonaro acabou pegando Macron numa dessas visitas as suas origens esquerdistas: usando a mídia internacional para repercutir uma agenda ambientalista esquerdista e, por tabela, lembrando do seu passado colonialista ao propor a internacionalização da Amazônia.

O Presidente brasileiro não deve esperar as desculpas do Presidente francês, ele está muito ocupado procurando o seu caminho enquanto oscila entre a esquerda e a direita.


Jorge Schwerz é Coronel da Reserva da Aeronáutica, MsC pelo ITA e ex-Adido de Defesa e Aeronáutica na França e Bélgica.


Referências:

[1] FRANCE INTER. Ismaël Emelien: C'est plus difficile pour les progressistes d'exercer le pouvoir. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=VKbJMpXUb9M&list=WL&index=5&t=958s. Acesso em: 30 ago 2019;


[2] DUMITRU, Speranta. Si Macron pense à gauche, pourquoi le voit-on à droite? Disponível em: https://theconversation.com/si-macron-pense-a-gauche-pourquoi-le-voit-on-a-droite-116149. Acesso em: 29 ago 2019;


[3] GAMBERINI, Giulietta. Les femmes du président Macron. Disponível em: https://www.latribune.fr/economie/france/les-femmes-du-president-macron-715760.html. Acesso em: 30 ago 2019; e


[4] RIOUFOL, Ivan. Comment le mensonge est devenu anodin. Disponível em: blog.lefigaro.fr/rioufol/2019/08/comment-le-mensonge-est-devenu.html. Acesso em: 30 ago 2019.

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